sábado, 28 de maio de 2011

Relatório preliminar sobre queda do voo 447 isenta pilotos de culpa

Há indicativos de que o sistema de navegação e de orientação à navegação parou de funcionar e de que a queda demorou três minutos e meio. Quando os problemas começaram, comandante estava fora da cabine.


Autoridades francesas divulgaram, nesta sexta-feira (27), um relatório sobre os últimos momentos do voo 447 da Air France, que caiu no mar entre o Rio de Janeiro e Paris, em junho de 2009. Os dados estavam registrados na caixa-preta resgatada por robôs a 4 mil metros de profundidade.
“O piloto é claro ao dizer que nenhuma informação estava disponível para a sua orientação. O sistema de navegação e orientação à navegação parou de funcionar”, avaliou o engenheiro da Coppe (UFRJ) Moacyr Duarte.
O especialista em segurança de voo analisou o laudo preliminar sobre a queda do avião. Os pilotos eram experientes e a rota conhecida. O que provocou a queda? Esta resposta ainda não foi dada pelas autoridades francesas.
Nesta sexta-feira, foi divulgado apenas o histórico do voo. Às 22h29, o Airbus A330 sai do Rio com destino a Paris, com 12 tripulantes e 216 passageiros. Pelo relatório, não houve problemas nas primeiras duas horas de voo. A partir daí, os pilotos se preparam para uma turbulência.
2h06min04s: um deles diz ao comissário: "Em dois minutos, devemos atacar uma área mais agitada que agora e devemos tomar cuidado lá".
2h10min05s: o piloto automático é desativado e um alarme dispara duas vezes, indicando perda brusca de velocidade.
“É uma sequência de informações desencontradas, vindas dos instrumentos e uma conduta imprevisível e inesperada da aeronave em relação ao que seria o normal. E isso claramente é um indicativo que os problemas já tinham iniciado”, analisou o especialista.
2h10min16s: onze segundos depois, o piloto diz: "Perdemos as velocidades".
“Não sabia a partir daí se o avião estava se movimentando com que”, afirmou.
2h10min51s: pouco depois, o alarme soa novamente e o piloto faz uma manobra.
“Eles aceleraram os motores tentando recuperar e colocar uma inclinação do nariz do avião semelhante à posição de decolagem, 16 graus”, avaliou Moacyr Duarte.
2h12min02s: a aeronave fica fora de controle e um dos pilotos alerta: “Não temos nenhuma indicação que seja válida". Quinze segundos depois, a situação se modifica.
“Ele tem um aparente controle, ou restabelecimento do controle da aeronave. Por poucos instantes ele tem”, disse o especialista.
Mas já era tarde. A caixa-preta registra as últimas informações 2h14min28s depois da decolagem.
“Pela maneira como o avião caiu, com o nariz apontado para cima, quase em posição de decolagem e estolando, ou seja, caindo verticalmente, sem que houvesse movimento significativo para frente. A ideia que a gente tem é que alguma coisa no sistema de suporte ao voo falhou”, declarou ele.
O especialista explicou que o fato de o avião ter caído à noite, de bico para cima, pode ter dado à tripulação e aos passageiros, a falsa sensação de que a aeronave não estava em queda. Segundo ele, nos três minutos e meio que o Airbus levou para atingir o oceano, não teria havido pânico.
“Não há referência nas gravações das caixas de nenhuma gritaria. Então, a impressão que dá é que a pessoas não se deram conta de que a situação era tão grave até o momento final”, avaliou.
Ainda segundo o relatório, quando os problemas começaram, o comandante estava fora da cabine, em repouso. Alertado por um dos dois co-pilotos, ele retorna em menos de um minuto.
Comandante há 26 anos e com larga experiência em aviões de grande porte, o vice-presidente da Associação de Pilotos da Varig afirma que a legislação brasileira não permite que as aeronaves sejam conduzidas apenas por co-pilotos.
“O padrão mundial de treinamento para pilotos é o mesmo. A exigência para o comandante é um pouco maior do que é para os co-pilotos. Do ponto de vista de gerenciamento é muito maior do que é para os co-pilotos. A experiência prática em tomar decisões é dos comandantes, não é dos co-pilotos”, afirmou ele.
Em Paris, um porta-voz da Air France afirmou que os pilotos e co-pilotos possuíam alto nível de qualificação e competência e que a companhia tem confiança máxima no profissionalismo dos três. De acordo com a Air France, até o momento, não há nenhuma evidência que prove o contrário.

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